A ambiguidade que paira entre divulgação, opinião e crítica – esta última assente num trabalho mais profundo de investigação e contextualização, de referenciação da história, dos conteúdos e das ideias – é por certo um dos desafios que se coloca à expressão do pensamento erudito sobre o mundo que nos rodeia; a este respeito escrevi recentemente em Da arquitectura como narrativa política. O caso torna-se no entanto mais complicado quando essa indistinção parte dos próprios críticos, neste caso de arquitectura. No ensaio Os analfabetos do presente Pedro Levi Bismark enuncia o «últimas reportagens» como sintoma de um processo de desvalorização crítica da imagem, denunciando-lhe a ausência de critério arquitectónico, estético ou político.
Coloca-se, em primeiro lugar, um equívoco de partida. O exemplo em causa, como tantos outros sítios web de fotógrafos de arquitectura, tem explícita uma fundação empresarial. Estes profissionais são – tal como os arquitectos – prestadores de serviços e a sua presença na internet é uma extensão natural da sua imagem; algo que se traduz, no interface gráfico e nos conteúdos que divulgam, tanto no domínio corporativo como no campo criativo. É assim com Iwan Baan, Cristobal Palma, Hertha Hurnaus, Fernando Guerra, como com tantos outros.
Afirmar, em relação ao caso particular do fotógrafo português, que não pode ser esquecido de modo nenhum é que um site como este não é uma publicação de arquitectura, onde texto e fotografia se cruzam para construir uma crítica de obra é “disparar sobre o mensageiro” em nome de um equívoco que o próprio crítico parece alimentar.
Será indesmentível que a fotografia se tornou, no mundo da rede, um veículo poderoso de divulgação da arquitectura produzida – mais do que do seu “valor crítico”. Uma boa foto de arquitectura não é necessariamente consequência de um bom projecto nem o fim último de um edifício consiste em ser fotografado. A arquitectura, existindo para ser vivida, abre sobre o mundo um diálogo com o lugar, com o tempo, com a memória. A representação fotográfica é mais uma extensão desse diálogo, não sendo indiferente o discurso formal da própria imagem e o seu destinatário editorial. Uma fotografia comissionada por um arquitecto não tem os mesmos parâmetros estéticos de uma comissão para a Dwell, como esta diverge dos padrões editoriais de uma Wallpaper; e, no entanto, nestes como noutros exemplos mais, podemos estar a falar de um só edifício. Para a mesma arquitectura, muitas “imagens” possíveis.
O que é questionável é alimentar uma visão caricatural em que a chancela de um fotógrafo se traduz numa paródia de “selo de qualidade” da própria arquitectura. Como se o facto de obras de diferentes arquitectos serem fotografadas por Iwaan Baan ou Fernando Guerra as colocassem num mesmo patamar “crítico”. O caso torna-se mais grave quando se enuncia o caso particular de Álvaro Siza, merecedor de uma secção autónoma destacada no site do fotógrafo português, como estando lado a lado com um outro exemplo publicado numa rede social, ignorando o valor editorial dessa distinção.
O equívoco expresso por Pedro Levi Bismark torna-se ainda mais explícito quando coloca no mesmo plano o «últimas reportagens» com o «archdaily», este último o blogue de arquitectura mais visitado do mundo. Vale a pena reflectir sobre o que isso significa: qual o seu “valor crítico”. Resposta: nenhum. O «archdaily» não é um espaço de crítica de arquitectura e, no entanto, a sua política editorial não é de todo inócua. Ele concorre, com outros blogues semelhantes, pela publicação de conteúdos “em primeira mão”. Um press-release com imagens mais ou menos sensacionais de um projecto, enviado a dezenas ou centenas de emails de blogues, vê-se publicado em poucos minutos. Nesta blogosfera a novidade e a celeridade traduzem-se em hits, o que por sua vez se converte em fonte de revenue.
Não desenvolvendo sobre os projectos qualquer conteúdo crítico, a publicação num «archdaily» não se traduz por isso num valor qualitativo da obra. Um projecto não é bom ou mau por ser publicado na internet. No entanto, esta lógica de reciprocidade entre blogues e empresas de arquitectura tem uma consequência perversa quando dela se pretende extrair uma representatividade crítica; algo que o «archdaily» invocou por diversas vezes sob a forma de editorial. Como se a exposição de um projecto e a sua submissão ao “comentário” fossem em si mesmo uma forma de sujeição à “crítica” popular, o que por sua vez se traduziria num “valor” democrático. Ao fazê-lo, o «archdaily» alimenta os piores equívocos redutores da noção de crítica de arquitectura no espaço público.
Por muito que isso escandalize noções pueris de democraticidade que reinam na internet, a verdade é que a crítica de arquitectura será sempre uma actividade minoritária, de nicho. Trata-se, no entanto, de um espaço contido mas poderoso onde podemos encontrar coisas como o BLDGBLOG, o City of Sound, o Fantastic Journal, o Kosmograd, entre tantos outros, que desenvolvem o trabalho crítico de mapear os conteúdos – dos projectos, dos desenhos, dos textos, das fotografias – com o cruzamento de múltiplas referências.
O aspecto mais infeliz do texto do Pedro Levi Bismark é confundir estes diferentes planos na tábua rasa de uma generalização que alimenta esse mesmo olhar iletrado e indistinto sobre “as imagens” que hoje se abatem sobre nós num volume sem precedentes. O que ali se traduz é uma patologia recorrente na crítica escrita entre nós, pronta a disparar sobre o mensageiro de forma fácil mas que tantas vezes se demite de abordar os verdadeiros temas do nosso país em crise e do território sociológico em que vivemos. Nunca como hoje fez a crítica de arquitectura tanta falta, nem esteve tão ausente.





Uma recolha de imagens captadas no sistema de vistas panorâmicas Street View pelo Benjamim Silva. Um pequeno ensaio sobre a transição entre o registo mecânico de captura de imagens, acrítico, para um processamento emoldurado pelo olhar. O seu trabalho de fotografia pode ser descoberto no Flickr.

O blogue 100ideias faz-nos relembrar as célebres Cadeiras Gonçalo, um clássico do design industrial português. Um pouco da sua história encontra-se aqui. Imagem via Wikipédia.

Fotografia de Matthias Heiderich. Mais aqui.
O Diário de Notícias dá conta da polémica que envolve a intenção de construir um novo quartel da GNR no centro histórico da vila de Penedono. A arquitectura volta a fazer manchete como se de um caso de polícia se tratasse.
Não estão em causa os fundamentos da inquietação expressa no artigo, em particular nas palavras ponderadas de Dalila Rodrigues, antiga directora do Museu Grão Vasco e do Museu Nacional de Arte Antiga. O que motiva perplexidade é o facto da peça jornalística se sustentar numa imagem não creditada como forma de validação daqueles argumentos.
Ficamos assim sem saber se aquela é uma pré-visualização oficial do projecto ou antes uma fotomontagem caseira feita por um anónimo qualquer. A imagem tem, aliás, o efeito perverso de reduzir um debate importante a um juízo binário sobre uma vista desfocada de um edifício a centenas de metros de distância.
Não se trata aqui de defender aquela arquitectura, cujo conteúdo desconheço para lá da imagem que nos é dada. Mas, falando-se de arquitectura, fica ausente o contraponto do depoimento dos autores do projecto em abono do rigor jornalístico.
Quanto à polémica resta apenas esperar que prevaleça o bom senso e o respeito por um património que persistiu ao decurso do tempo e merece sem dúvida ser preservado.

Visitei recentemente a exposição ARX ARQUIVO onde se dá a conhecer o percurso de duas décadas de trabalho da ARX Portugal. Uma viagem pelo processo de investigação que o atelier de Nuno e José Mateus leva a cabo em cada projecto de arquitectura, trata-se de uma apresentação de um espólio muito extenso de material de trabalho que se organiza como arquivo habitável, onde as maquetes ocupam um papel fundamental.
A exposição começa por conduzir-nos no tempo através de um painel de fotografias, desenhos e referências várias que fazem parte das suas origens, onde podemos reconhecer as influências da Morphosis de Thom Mayne, de Eisenman ou de Libeskind. Abre-se então o trajecto cronológico pelas obras da ARX, revelando como cedo se foram desvanecendo gestos mais formalistas de origem para assistirmos à consolidação da identidade ARX. É uma prática experimental que arrisca o desconhecido, exploratória, livre do espartilho de pressupostos fixos e linguagens pré-definidas, expondo o melhor sentido cosmopolita da academia de Lisboa.
ARX ARQUIVO estará patente no CCB até ao dia 21 de Julho. Ficam alguns instantâneos, recomendando a visita ao sítio web da ARX onde podem encontrar uma reportagem fotográfica mais completa e fiel ao ambiente da exposição, a não perder.








ARX, ARX ARCHIVE exhibition, Lisbon, Portugal, 2013.

António Belém Lima, ABA - Centro Comunitário, Vila Real, Portugal, 2008. Image credits: Fernando Guerra.
Porque nenhuma reportagem de arquitectura fica completa sem o apontamento animal eis o álbum que se impunha: Ur_ANIMALS. A imagem acima faz parte do conjunto de fotografias do Centro Comunitário ABA em Vila Real, projecto do arquitecto António Belém Lima. Não percam a colecção completa de álbuns do Ultimas Reportagens no Pinterest, uma extensão da página oficial do Fernando Guerra.

Fantastic Norway, New Utøya, Utøya, Norway, 2013 (under development). Image credits: Fantastic Norway.
Como lidar com o território de uma tragédia? Em tantos casos a dimensão do trauma, bem presente na memória dos vivos, parece justificar apenas o vazio. Como se só o silêncio pudesse falar a dor que habita os sobreviventes e as famílias das vítimas.
Não podemos fazer juízos sobre esse silêncio profundo. No entanto, se há algo verdadeiramente extraordinário no projecto da Nova Utøya é a força e a vontade de ultrapassar o vazio e construir o futuro. O projecto, promovido pelo Labor Youth Party e desenhado pela Fantastic Norway, visa reestabelecer o campo de jovens da ilha de Utøya e fazer dela um símbolo de unidade e diversidade. A arquitectura como forma de construir democracia.

Via Daniel Gray.



To all my beautiful demons is a photographic essay by Mário Venda Nova, author of the Portuguese blog O Elogio da Sombra.
O que é a ausência? – eis o ponto de partida para uma viagem fotográfica em busca dos demónios de relações passadas que carregamos connosco e projectamos no mundo que nos rodeia. Um trabalho de Mário Venda Nova, autor do blogue O Elogio da Sombra, para ver na íntegra em: To all my beautiful demons.
«Nerdfighter: People who instead of being made up of cells and organs and stuff are actually made out of awesome.»
Definição de Nerdfighter no Urban Dictionary.
Não o conheço mas ouvi falar bem dele e depois de ver os seus vídeos passei também a ser seguidor. Fica assim este momento “gosto disto” para partilhar as aventuras do Xassbit, estudante de Física, músico, videoblogger a residir temporariamente nos Países Baixos ao abrigo do programa Erasmus. Visitem e subscrevam o canal do Xassbit no Youtube para seguir a bombástica e sensacional série semanal dos Diários de Nijmegen.
O Xassbit (que tem um blogue) é também um adepto do nerdfighting e faz parte do grupo The Nerdfighter Vlogging Initiative, uma comunidade de videobloggers de várias nacionalidades que vale mesmo a pena conhecer. Fica no Tumblr, o único lugar da internet que as nossas mães ainda não descobriram. Ide. Já…
O défice de nerdismo nacional é um problema que me assiste. Vou ao ponto de considerar o facto de não ter amigos nerds como um dos dramas da minha existência. A questão coloca-se da seguinte maneira: há toda uma panóplia de temas que fazem parte do meu universo de interesses pessoais sobre os quais não tenho quase ninguém com quem conversar. Pessoas que compreendem a importância de ir à estreia do Hobbit envergando pés-de-hobbit ou uma frondosa barba oficial do Gandalf. Aficionados da ficção científica ou do fantástico, cromos dos comics, do cosplaying e das estátuas-miniatura de super-heróis, gente que vibra com a visão da nave espacial Enterprise a elevar-se dos mares ou com o prospecto de passear pelas ruas virtuais da cidade flutuante de Columbia…
Sei que este não é um assunto sério, e tanto mais num país em crise. Mas a carência do espírito tongue-in-cheek que caracteriza a cultura-nerd reflecte um pequeno problema da sociedade portuguesa. Uma falta geral de entusiasmo pela diversidade e riqueza das formas de expressão humana.
Um dos traços mais “obnóxios” de uma certa postura (falsamente) intelectual reside na pose de enfastiamento generalizado, como se esse fosse um traço de grande selectividade mental. A consideração a fazer é que pessoas de exigência superior serão superiormente exigentes quanto ao “gosto”. Por esta ordem de ideias, quanto mais inteligente se é, mais exigente se é também e, como tal, passamos cada vez mais a gostar de menos coisas. Nada mais falso.
Acredito que este é um problema real da nossa Educação. Não somos educados para o gosto. Não compreendemos, aliás, que o gosto é toda uma ferramenta de aprendizagem. Recordo, a este respeito, um velho disco em vinil que me foi parar às mãos há muitos anos. Duas peças de violoncelo interpretadas por Thomas Demenga. No lado A uma guigue de violoncelo de Bach. No lado B uma obra contemporânea de Elliot Carter.
O álbum era acompanhado no interior por um texto de Heinz Holliger, compositor Suíço, que alertava para o contraste absoluto que o ouvinte iria encontrar.
«Although BA and CA coexist so peacefully beside each other in the alphabet, I am afraid that when the first jagged flashes of flute and clarinet rend the serene C major skies of Bach’s Gigue, your hand will rush to switch off the record player. I hope my plea does not come too late to stop this from happening. It would be such a shame if one fateful turn of the knob were to close off the new and fascinating sound-world just opened to you by those first flashes. Lie back and relax, listen, look, feel and remember the future; try to foresee the past. Let Zeus throw down from the new Olympus those shattering bolts of sound. Let the purifying spiritual storm (not just Esprit rude, Esprit doux) rage around you. You will be richly rewarded.»
Holliger alertava para o choque natural entre as paisagens serenas e familiares de Bach e o universo musical estilhaçado e abstracto de Carter. E desafiava a ir além do repúdio que se sentiria ao confrontar aquela ausência de horizontes, daquelas referências que nos são habituais. A ir para lá daquele espaço onde nos sentimos seguros e confortáveis. A ir além do “desgosto”, a aprender a gostar.
O gosto não é mais do que uma forma de compreensão, um ponto de encontro com a inteligência do autor. Para aqueles que estão dispostos a desafiar os limites do seu gosto, o mundo é um espaço de aprendizagem sem fim.
O melhor da cultura nerd é celebrar essa capacidade de gostar, o entusiasmo de sentir que “gosto disto” e quero partilhar. Desinteressadamente.
As pessoas que não gostam de nada, que se enfastiam, que sofrem de tédio, são pessoas que não sabem nada. Para todos aqueles que estejam dispostos a desafiar-se, a romper com os limites de partida que todos temos, o mundo é um lugar entusiasmante cheio de coisas para viver e descobrir em todos os sentidos, seja no cinema, na literatura, na ciência, na história, na música, na fotografia, na banda-desenhada, nos jogos de vídeo, na culinária ou no crochet, ou em todas as outras coisas em que o espírito humano é capaz de se aventurar.
Se gosto, gosto. Se não gosto, não gosto…
A sério?
Um texto que recomendo vivamente: Não me peçam borlas… eu vivo disto pela jornalista, produtora e freelancer multifacetada Ana Luisa, autora do blogue Doce Para o Meu Doce.
Desabafo sobre uma cultura de desvalorização do trabalho alheio, hostil ao empreendedorismo e, de uma forma muito particular, às actividades de cariz criativo e artístico. Uma realidade que se vai alastrando de forma absolutamente destruidora da qualidade, abrindo o mercado à concorrência desleal e reduzindo as possibilidades de sucesso ou até de sobrevivência empresarial daqueles que querem cumprir as regras com sentido de ética e cidadania. Para ler, incluindo os comentários…
Em oposição à exaltação não-crítica do “autor” está o papel desempenhado pelos blogues e as redes sociais enquanto espaços de opinião no directo da rede. Se por um lado temos a incapacidade em produzir asserções sobre “a obra” baseadas em argumentos substantivos, subjectivos mas qualificáveis, temos por outro o exercício infeliz do “achómetro”.
Oitocentos anos de escárnio e maldizer encontraram na internet a placa de petri ideal para a fermentação, tudo reduzindo a uma caricatura do outro.
Exemplo deste fenómeno são os ataques recorrentes que a artista portuguesa Joana Vasconcelos parece merecer na nossa blogosfera. Se é certo que não devemos sustentar a ideia provinciana de que só porque alguém é “reconhecido lá fora” será merecedor de vassalagem “cá dentro”, também não devemos alimentar a agressão moral sobre outrem pelo simples facto de ter conquistado notoriedade.
O facto torna-se mais grave quando não encontramos nesses ataques qualquer substância argumentativa que os sustente. Os casos variam entre o engraçadismo habitual, assente na adjectivação mais ou menos colorida, a ataques de classe dirigidos à “política cultural do governo” para quem a artista é um mero dano colateral, ignorável e até desejável. Sobre as obras, invariavelmente, nada se diz.
A subserviência acrítica sobre uns e a destruição liminar de outros são duas faces da mesma moeda, de uma grosseira incapacidade de produzir juízo de valor sobre as coisas. Em boa verdade pouco falamos de obras, antes enfatizamos a chancela do autor – e para quem não tem chancela não há obra que lhe valha, por melhor que seja.
O que perpassa de tudo isto é o modo como olhamos uns para os outros neste tempo tóxico que estamos a viver. A cultura do escárnio é produto da descrença e do cinismo, inimiga maior de uma sociedade meritocrática, entusiástica e desinteressada, motivada por descobrir, partilhar e proteger aquilo que tem valor.
Adenda: uma resposta e um comentário, aqui.
«(…) a narrativa surge onde a ideologia desapareceu e, sobretudo, onde e quando o vazio ameaça a política. Ela resulta fundamentalmente de dois fenómenos: da erosão das ideologias, por um lado, e da formatação da realidade pelos media por outro lado.
As ideologias, em vez de serem laboratórios experimentais de ideias, transformaram-se em corpus mais ou menos dogmáticos de estereótipos, que dão sempre as mesmas respostas a todos os problemas: para elas, as respostas vêm sempre antes dos problemas.
E quando se tem as respostas antes dos problemas, as ideologias deixam de ser um espaço animado por ideias e valores, por factos e argumentos, por explicações e controvérsias.
(…) As narrativas aparecem então como historietas de oportuno consolo, capazes de propiciar alguma leitura do mundo e dos seus acontecimentos. Como formas simples e acessíveis de representar o incompreensível e de iludir a questão central, que continua a ser a do poder: afinal, quem manda nisto?
Mas é precisamente perante as questões decisivas, como esta, que as narrativas revelam toda a sua fragilidade e insuficiência. Elas vivem entre a facilidade da treta e a tentação da burla (…). Elas embalam mas não esclarecem, elas insinuam mas não explicam, elas consolam mas não mobilizam.»
Manuel Maria Carrilho, Narrativas ou narrotretas, Diário de Notícias, 2013.
Uma obra estimada em 108 milhões de euros para construir em três anos. Mais de uma década passada, 400 milhões de euros depois, o parlamento Galego decidiu concluir o processo de construção da Cidade da Cultura de Galicia “tal como está”, com dois edifícios ainda por construir.
A notícia, agora partilhada por Edgar Gonzalez, confirma as perplexidades já abordadas pelo popular Jordi Évole no seu documentário Cuando éramos cultos. Um retrato severo da bolha cultural de Espanha de que agora restam cascos “sem uso nem conteúdo”, cronicamente deficitários e financeiramente insustentáveis.
Estamos perante um exemplo paradigmático de uma doença mais vasta que atinge o que tantas vezes se faz passar como "política pública de arquitectura". Que devaneios desta natureza tenham sido cometidos em nome do “apoio à cultura”, com a cumplicidade e a vassalagem de todos os agentes institucionais, é bem o retrato da corrosão ética e moral que conduziu à nossa sociedade à falência, em múltiplas formas.
Temos assim a arquitectura enquanto manifestação e veículo de narrativas políticas, uma arquitectura que não se move verdadeiramente por ideias e valores, que não traz consigo qualquer entusiasmo ou vontade de transformação do mundo, antes padece das mesmas debilidades que enfermam o discurso político corrente. Por isto mesmo são operações que se revestem de uma forte carga discursiva, ficções validadas pela chancela “notável” de autor onde confluem interesses e oportunismos geradores das maiores armadilhas financeiras. Que o interesse público, esse valor central da democracia, seja a primeira vítima destes processos é algo que não parece trazer consequência ou qualquer forma de resistência.
Trata-se de uma patologia cultural que afecta profundamente o espaço público das ideias. Tão grave quanto a actuação de políticos sem escrúpulos e sem responsabilidade é o modo como os agentes do meio arquitectónico contribuem activamente para sancionar aquela apropriação do “arquitecto” enquanto álibi da indiscutibilidade dos processos de promoção da obra pública e da sua validade programática.
Neste jogo de interesses a crítica de arquitectura representa um papel decisivo e, lamentavelmente, fatal. É certo que o exercício da crítica vive hoje refém de diversos mal entendidos pela indistinção entre informação, divulgação, opinião e esse outro trabalho maior de contextualização e confronto investigativo da história e das ideias. Também aqui a mediatização e os blogues deram tantas vezes um mau contributo, alimentando a confusão em nome de um falso debate “democrático” que mais não é do que a expressão do mínimo denominador comum do pensamento.
Mas a falência da crítica de arquitectura vai muito para lá dessa disfunção contemporânea. O que está em causa é a legitimidade da crítica enquanto suporte voluntário da construção de narrativas artificiosas, ausentes de qualquer frontalidade ou substância. Como se a obra de arquitectura fosse legitimável enquanto manifestação de si própria, divorciada do tecido financeiro, económico, social, político, cultural em que tem lugar. E como se o crítico pudesse sê-lo sem ser cidadão do seu tempo.
Se vivemos um tempo de narrativas é exactamente por habitarmos um território de não-crítica. O que testemunhamos são representações de crítica, vazias e rotundas, ensaiando ocasionalmente laivos de irreverência, sempre e invariavelmente atirando sobre alvos fáceis. Em boa verdade, mais não são do que exteriorizações de uma cultura falida e moribunda, animada apenas pelo momento de tempos passados, tal como estas arquitecturas.
Estas questões, previsivelmente, não se verão abordadas em qualquer conferência ou editorial.
Descubro no Horizonte Artificial um interessante conjunto de notas sobre o Google Reader. O Pedro disseca os meandros desse submundo dos blog-junkies em números. Lembra-nos, a título de exemplo, que A Pipoca Mais Doce tem 8.000 subscritores no Reader e 105.000 fãs no Facebook – números actualizados por mim.
O Pedro tem razão. E se, como ele diz, a melhor forma de acompanhar um blog continua a ser visitando-o e alimentando o seu dono (com comentários, likes e links), a diferença esmagadora que separa aqueles universos fala-nos da transformação da paisagem da rede e da queda da blogosfera enquanto palco central de conversação. Estamos a passar de um tempo em que buscávamos a informação ao nosso ritmo – guardada nos arquivos de um blogue – para um outro tempo em que a informação acontece no directo da rede social.
Também os leitores de feeds não são mais apenas espaços para ler mas plataformas para o broadcasting, gostando ou partilhando no Facebook, no Twitter, no Tumblr à distância de um clic. Estamos todos a emitir nesta nova paisagem onde tudo é “aqui e agora”. Em que estás a pensar? – pergunta o Facebook. O pensamento é substituído pelo comentário. Quanto hits, likes e shares vale, afinal, um leitor?
«Por cada porta que se abre, em algum lugar do mundo, outra se cerra. Esta equação universal das aberturas e dos fechos é tão certa quanto indemonstrável. Mas parece claro que o número de portas no mundo é sempre estável e imutável e, portanto, deve ter-se muito cuidado para não abrir uma a menos que seja absolutamente necessário.
Das muitas coisas que as portas podem ensinar-nos, uma das mais sugestivas não é essa ficção verosímil mas outra de igual transcendência efabulatória: que toda a porta é uma membrana de muitas substâncias.
As portas deixam entrar o habitante mas também com este o frio. As portas deixam passar os odores da rua e dos vizinhos pelas suas frestas. Pelas portas atravessa o vento e por vezes a neve ou a água percutam nas suas folhas cerradas. As portas incham, roçam e mudam de tamanho. As portas rangem e oxidam. As portas deixam passar vírus, doenças e pragas bíblicas. As portas são o aperto de mão que nos dá o edifício. As portas, sob as suas folhas, são caixas de correio ocasionais para cartas e recados. As portas são esses seres maravilhosamente hostis à mudança, sendo em si mesmo causadoras de tantas. As portas deixam passar notícias, murmúrios e, por vezes, ladrões. As portas são tenazes que trilham os dedos ou o pé acostumado do vendedor de enciclopédias.
As portas deixam passar rios.
E pobre daquela porta que não aspire, ao menos, a todas essas coisas, para lá de entrar e sair.»
Santiago de Molina, La necesidad de las puertas. Via Multiples Estrategias de Arquitectura.

The 2013 Lisbon Architecture Triennale will take place from September 12th to December 15th.
O novo sítio web da Trienal de Arquitectura de Lisboa está online com toda a informação necessária para acompanhar o seu calendário preenchido, tudo à distância de links apropriadamente decorados em tom azul-retro reminiscente dos primórdios da interwebz. Também podem subscrever as páginas do Facebook e do Twitter para mais notícias e actualizações.
The retro-blue links are making a comeback on the 2013 Lisbon Architecture Triennale website, now up and running with all the information you need to follow its busy schedule. Don’t forget to subscribe the Facebook and Twitter accounts for additional news and updates.

The ARX ARCHIVE exhibition will be on display at the CCB (Centro Cultural de Belém, Lisbon) until July 21st.
Patente até 21 de Julho no CCB [Garagem Sul – Exposições de Arquitectura] a exposição ARX ARQUIVO dá a conhecer uma extensa colecção de material produzido no decurso de mais de duas décadas de trabalho. São muitas maquetas, desenhos, fotografias e filmes que dão corpo a um arquivo habitável, para descobrir os processos exploratórios de projecto que estão na base da arquitectura do atelier ARX, dirigido por Nuno e José Mateus.
São ilustrações representando alguns dos museus mais icónicos do mundo, traduzidos em imagens minimais numa fusão entre arquitectura e design gráfico. Um trabalho de André Chiote, arquitecto e ilustrador sediado no Porto. Sigam o link para conhecer toda a sua colecção.
Interesting set of architecture illustrations capturing some of the most iconic museums of the world, translated into strikingly minimalistic images. André Chiote is an architect and illustrator living in Oporto, Portugal.






O “projecto” de Toyo Ito que não entrou no booklet oficial do Prémio Pritzker. :P
Toyo Ito’s “project” that didn’t make it into the official photo booklet of the Pritzker Prize. :P
A directory of portuguese architects.
The archives have been moved to the bottom of the page. Please scroll down to read... :)
The architecture blog A Barriga de um Arquitecto / The Belly of an Architect (written in bilingual Portuguese-English) is mainly focused on contemporary architecture and urban design, covering recent works from Portuguese architects as well as projects of international significance.
My name is Daniel Carrapa. I was born in Lisbon, Portugal, in 1973. I’m an architect living in Évora, a nice historical town that was included in the World Heritage List by UNESCO in 1986. I’m married, have 4 cats – Matilde, Patanisco, Olivia, Lisa – and 1 dog – Moby. Moby is a three-legged dog. He’s okay. I graduated as an architect in 1996 (FAUTL Lisbon Faculty of Architecture). I am also an authority on cat litter and will provide expert advice upon request.
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