A Barriga de um
Arquitecto

Mais depressa nos ensina a terra do que todos os livros. Porque nos resiste.

12.5.15

Sinais de Fogo – ciclo de debates


Está a decorrer o ciclo de debates Sinais de Fogo, uma iniciativa promovida pelo centro de artes transdisciplinares O Espaço do Tempo sob a direcção de Rui Horta e Ana Sousa Dias.

São conversas de periodicidade mensal que têm lugar no Convento da Saudação em Montemor-o-Novo, sempre numa manhã de sábado. A próxima sessão tem data marcada para dia 23 de Maio sob o tema «A Loucura das Religiões», contando com a presença de Frei Bento Domingues, Joana Carneiro e Carlos Fiolhais. O calendário completo pode ser consultado no sítio web oficial do projecto, onde podem também ser visionadas as gravações vídeo dos eventos anteriores.


Fica o registo para a mais recente sessão, com o título «Turbo-capitalismo», com João Ferreira do Amaral, partilhando a sua visão sobre a actual circunstância de Portugal na Europa e no contexto da moeda única.
11.5.15

Da ausência do outro


O Desaparecimento de Eleanor Rigby é, na sua versão original, um díptico. Dois filmes distintos – um subtitulado Ele, o outro Ela – fazem o retrato do processo de desgregação de uma relação na sequência de uma tragédia. Assim vamos conhecer duas perspectivas sobre uma mesma história, cada uma preenchendo os vazios da outra e, a pouco e pouco, dando a conhecer o quadro mais vasto que se vai compondo a partir de cada pequeno mosaico de narrativa.

Os dois filmes foram exibidos pela primeira vez no Festival Internacional de Cinema de Toronto em 2013, merecendo a atenção da produtora The Weinstein Company que viria a comprar os direitos de distribuição em território norte-americano. Condição imposta a essa aquisição foi a feitura de uma versão adicional – com o subtítulo Eles – que juntou as duas obras num único filme, numa edição mais acessível que lhe pudesse dar maior alcance junto do público.
É essa versão, porventura mais “comercial”, que o espectador desprevenido poderá encontrar pela primeira vez, assim perdendo a oportunidade de descobrir esta pequena jóia cinematográfica na forma em que foi verdadeiramente imaginada.

A separação da história dos dois protagonistas – Conor (James McAvoy) e Eleanor (Jessica Chastain) – é muito mais do que um simples recurso estilístico. Trata-se na verdade de um registo essencial para imprimir em cada uma dessas histórias um sentido que está de todo omisso na montagem convencional; o sentido da ausência do outro.

Linhas de argumento que marcam o trajecto das personagens são secundarizadas ou mesmo truncadas naquela versão compósita.
Mais do que isso, os dois filmes vão introduzindo pequenas ambiguidades no recontar das mesmas cenas, em diferentes perspectivas. Pequenas variações na entoação tornam uma mesma conversa afectuosa ou distante. Por vezes os gestos mudam, outras vezes as palavras não são exactamente as mesmas. Numa passagem crucial mudam pormenores do guarda-roupa, mudam diálogos, mudam gestos. Ainda que a estrutura da cena seja a mesma, o sentido das palavras muda irremediavelmente.

É nessa ambiguidade que O Desaparecimento de Eleanor Rigby se revela uma obra maior, um trabalho de invulgar complexidade sobre o papel da subjectividade na construção das relações humanas. De como, de certa forma, estamos sempre a construir uma narrativa em torno das nossas vidas e de quão difícil pode ser o genuíno encontro entre duas pessoas.


O Desaparecimento de Eleanor Rigby encontra-se já disponível em DVD onde decerto não deixará de encontrar o seu público e tornar-se um objecto de culto junto de um pequeno grupo de cinéfilos e dos admiradores do par principal. Um filme que nos fala sobre a gravidade entre pessoas, sobre as forças que nos aproximam e afastam, e dos misteriosos caminhos que conduzem um amor sem destino, condenado a existir…
9.4.15

Uma mulher chamada Lina Bo Bardi


Não podia ser mais oportuno o interesse renovado que vem suscitando a vida e a obra de Lina Bo Bardi, reflectido através de um vasto conjunto de sítios web de arquitectura e motivado pelo destaque dado à arquitecta italo-brasileira na exibição Latin America in Construction: Architecture 1955–1980 promovida pelo Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA), bem como pelo anúncio da chegada da exposição itinerante Lina Bo Bardi: Together ao território norte-americano no final deste mês.

Nascida em Roma no ano de 1914 Lina Bo Bardi tornar-se-ia uma activista dos princípios humanistas do Movimento Moderno, sendo hoje reconhecida como uma das grandes figuras da arquitectura do século XX. Nos seus trabalhos, que se estendem também ao domínio do desenho e da pintura, à edição gráfica, à joalharia e à cenografia, revela-se o encontro feliz entre as referências da sua formação Europeia com a espontaneidade da cultura Sul-Americana.
Abraçando o Brasil como sua pátria a partir da segunda metade da década de 1940 Lina viria a desenvolver uma obra muito diversa, vertendo nos seus textos críticos o seu pensamento enquanto defensora diligente da responsabilidade ética da arquitectura e da vontade de sensibilizar a sociedade para uma consciência mais profunda da História.


Se a casa de um arquitecto é a sua confissão, a casa de Lina no Morumbi revela-nos a sua sensibilidade estética de partida. Uma das suas primeiras obras construídas em território Brasileiro, a Casa de Vidro ostenta orgulhosamente a sua matriz modernista com uma frente suspensa sobre o parque: dois planos de betão armado assentes sobre pilotis e uma generosa envolvente envidraçada, aberta para a natureza.


A arquitetura é arte. É arte, só que não no sentido mofado das escolas de belas artes. Vejo a arquitetura profundamente vinculada com a ciência e a técnica. Na verdade não há diferença nenhuma.
A Tecnologia colocada em seu justo lugar nada pode causar de ruim, como impedir a Poesia, o Belo, até os sonhos bonitos.



A elevação e a transparência foram motivos que acompanharam alguns dos seus projectos mais notáveis, destacando-se a proposta para um Museu à Beira do Oceano, desenhada no mesmo ano de 1951, e aquela que é para muitos considerada a sua obra prima, o Museu de Arte de São Paulo, desenvolvido a partir de 1957.
Ícone da arquitectura Brasileira, o MASP é um exercício assumido de democracia e verdade construtiva. Um edifício suspenso sob uma híper-estrutura oferece um extenso espaço público ao nível da Avenida Paulista, bem como um prolongamento visual sobre o Parque Trianon. O volume-museu é todo ele generosamente envidraçado e a permeabilidade visual é acentuada pelos próprios suportes expositivos no interior, desenhados pela arquitecta, formados por lâminas de cristal temperado amparadas por singelos blocos de betão.


Acho que no Museu de Arte de São Paulo eliminei o esnobismo cultural tão querido pelos intelectuais (e os arquitetos de hoje), optando pelas soluções diretas, despidas. O concreto como sai das formas, o não acabamento, podem chocar toda uma categoria de pessoas.



A par com os seus projectos de cariz assumidamente moderno, Lina viria a ensaiar outros trabalhos de expressão mais vernacular, reflexo da sua sensibilidade artística e do seu fascínio pela cultura popular Brasileira. O seu descomprometimento gera, ainda hoje, alguns mal-entendidos naqueles que confundem com populismo a sua capacidade de abraçar com entusiasmo as contingências e os condicionalismos locais.
Em boa verdade, Lina Bo Bardi compreendia – e deixou disso testemunho escrito – o alcance do funcionalismo e da estandardização como instrumentos poderosos para democratizar o acesso à salubridade, ao conforto e à qualidade de vida das pessoas; enfim, à urbanidade – valores base da própria arquitectura moderna num tempo de profundas carências sociais.

Mas Lina tinha de igual modo consciência da necessidade de prover a uma experiência “espiritual” da vida, denunciando uma perda cultural que vinha a par com a especulação urbana e a massificação dos processos do fazer da cidade, dando lugar ao aparecimento de técnicos sem erudição e consciência ética que, nas suas palavras, iam reduzindo a vida humana a uma aventura sem fantasia, alheia à natureza, num divórcio que não pode ser normal, que contradiz as necessidades orgânicas, tendendo para uma arrogância suspeita, como que num desafio às origens das quais não podemos nos esquecer.



Para um arquiteto, o mais importante não é construir bem, mas saber como vive a maioria do povo.
O arquiteto é um mestre de vida, no sentido modesto de se apoderar desde como cozinhar o feijão, como fazer o fogão, ser obrigado a ver como funciona a privada, como tomar banho.
Ele tem o sonho poético, que é bonito, de uma arquitetura que dá um sentido de liberdade.
A arquitetura é profundamente ligada com a vivência, na medida que ela é tudo.




Obra de grande maturidade, que encerra o reencontro decisivo das suas múltiplas ideias e de todo um percurso de vida, encontramos no centro cultural SESC Pompéia projectado em 1977. Ali podemos descobrir uma arquitectura de contenção, de economia de desenho, de envolvimento social e de ética, dando corpo a um equipamento comunitário vibrante erguido sobre o casco de uma antiga unidade fabril.



Em Lina Bo Bardi encontramos alguém para quem a Modernidade foi, acima de tudo, um corpo de princípios, muito mais do que um depositário estilístico de formas e feitios. A sua obra afirma-se como um percurso de consciência cívica e de humildade, palavra tão ao gosto de Lina – uma humildade que nos serve de exemplo da força daqueles que, seguros de si próprios, não fazem de cada gesto autoral uma imposição sobre o espaço “do outro” mas antes uma oportunidade para participar generosamente no território da comunidade, na defesa intransigente de uma vivência rica e plena.
Por isso foi capaz de projectar obras profundamente modernistas, ousadas e híper-estruturais, ou dedicar-se com descomplexada sensibilidade artística a processos minuciosos e participativos, abertos a todas as influências, construídos no seio das maiores limitações materiais e humanas.
A arquitectura de Lina Bo Bardi é assim a antítese da starquitectura e é, também por isso, perene e contemporânea. Fala-nos do passado e continuará a transportar-nos para o futuro.

Lina Bo Bardi faleceu em 1992. Tinha 78 anos de idade. A sua obra vive e continua a ensinar-nos.


Mas o tempo linear é uma invenção do ocidente,
o tempo não é linear,
é um maravilhoso emaranhado onde,
a qualquer instante,
podem ser escolhidos pontos e inventadas soluções,
sem começo nem fim.
30.3.15

Irracionalismo


Uma esplanada composta por cadeiras de resina brancas – à venda no Leroy Merlin pela módica quantia de 4,49 euros cada – repousa num recanto da Cidade da Cultura da Galiza, obra que custou ao governo da região cerca de 400 milhões de euros. O cenário revela-se uma caricatura real das muitas perplexidades que se levantam perante estas arquitecturas mediáticas correntemente designadas como starchitecture.

Um artigo do The Architectural Review traça uma abordagem certeira sobre as contradições em que assenta o discurso “crítico” que tantas vezes se enuncia em torno destas obras – ler Empty gestures: Starchitecture’s swan song. São projectos que enfatizam o gesto híper-estrutural, marcados por uma grosseira desproporção entre o contentor e os seus conteúdos, com uma relação inversamente proporcional no que respeita ao investimento entre o construído e o vivido. Invariavelmente, são edifícios de exacerbada generosidade espacial para pouca ou nenhuma função – grandes átrios, extensos corredores, colossais escadarias; espaços onde persiste apenas o momento contemplativo. Uma arquitectura diligentemente empenhada em oferecer ao visitante o êxtase perante a sua própria obesidade.

O desalento que não podem deixar de nos provocar estas arquitecturas prenuncia a necessidade de revisitar uma história crítica da arquitectura contemporânea tendo presente o entendimento que hoje podemos ter quanto ao processo político e económico que conhecemos nas últimas quatro décadas. Estas são, em boa verdade, arquitecturas “do seu tempo” – de um tempo de irracionalismo que não deixará de invocar, como escreve Peter Buchanan, as maiores perplexidades junto das próximas gerações de arquitectos. E são também já arquitecturas do passado – mesmo nas suas manifestações vindouras. A sua espectacularidade só tem eco na sua profunda irrelevância. O mundo da arquitectura não tem hoje nada a aprender com estes exercícios de grande mediaticidade, presos que estão à singularidade dos seus contextos políticos e a uma visão hipertecnológica do processo construtivo.

A compreensão da singularidade que sustentou o fenómeno da starchitecture obrigará a reflectir sobre a sua fundação política e a efemeridade das circunstâncias económicas e sociais que a envolveram. Não podem nessa discussão os arquitectos julgarem-se espectadores inocentes da História ou fazer crer, como por vezes se ensaia, o papel amoral das suas investigações conceptuais – um discurso que só tem paralelo na retórica neoliberal em torno da pretensa amoralidade da actuação livre dos agentes económicos. Em si mesmo tal prerrogativa é já, ela mesma, uma afirmação carregada de “moralidade”.
O que está aqui em causa é, afinal, algo muito simples: que uma má política resultará sempre numa má arquitectura – eis algo que nem o mais sofisticado parametricismo consegue esconder.

Sobre este tema ler também: Arquitectura do défice: da arquitectura como narrativa política e Retratos da crise.
19.2.15

Infinito e mais além


Though my soul may set in darkness,
it will rise in perfect light;
I have loved the stars too fondly
to be fearful of the night.
— The Old Astronomer to His Pupil, Sarah Williams.

Uma montagem extraordinária em tributo ao cinema de ficção científica. A música é do filme Interstellar, da autoria de Hans Zimmer. A voz é de Anthony Hopkins.
9.2.15

A ler


A zona euro dedicou mais de um terço da sua vida a um ajustamento desequilibrado, que empobreceu toda a zona. Os custos desse ajustamento recaíram quase exclusivamente sobre os países mais pobres. (…)
Tendo identificado erradamente o cerne do problema com que a crise a confrontou, a forma como a zona euro com ela tem lidado revelou-se profundamente errada, porque se concentrou sobretudo nos sintomas mais visíveis ou nas ramificações do problema, descurando a sua raiz.
– Eurocrise: uma outra perspectiva, Vítor Bento, Observador.

Sabia que?...

Será que os nossos comentadores, jornalistas e directores de jornais sabem estes factos sobre o sistema bancário moderno? Eis algumas perguntas simples sobre economia.
5.2.15

Portugal do lado errado da História


Os governantes alinhados com a doutrina dominante na UE, entre os quais encontramos o Primeiro Ministro português, não querem sequer ouvir falar sobre a proposta do novo governo de Alexis Tsipras que gostaria de convocar uma grande conferência europeia sobre a dívida. Qualquer debate sobre estratégias e modelos alternativos de gestão das dívidas públicas é suprimido liminarmente. A palavra reestruturação, essa, tornou-se perigosa e é motivo de despudoradas campanhas de desinformação que procuram capturar os cidadãos no seu próprio pensar.

Jornalistas acorrem a questionar políticos sobre as suas posições a respeito de “intenções de reestruturação unilateral” das dívidas soberanas – uma discussão que simplesmente não existe e algo que ninguém propôs. As perguntas parecem saídas directamente de gabinetes de comunicação próximos do governo, prontas a serem replicadas por funcionários servis que há duas semanas não sabiam sequer quem era Varoufakis – muito menos conhecem as suas propostas.

No essencial, a Proposta Modesta avançada por Yanis Varoufakis e Stuart Holland e, numa posterior revisão, subscrita também por James Galbraith, assenta na transferência parcial (mas expressiva) de dívida para o domínio público, através do BCE, fazendo com que os títulos de dívida dos estados do Euro deixem de estar na dependência de financiamento junto da banca privada.

Tal possibilidade é também deturpada recorrentemente nos meios de comunicação por comentadores que alertam para os perigos que podem advir da criação de dinheiro “do nada” pelo BCE para a compra de dívida pública, ignorando, por desconhecimento ou com dolo, que é exactamente isso que faz o sistema financeiro privado através da banca comercial. No contexto Europeu, à semelhança do que se passa nos Estados Unidos, mais de 95% do money stock em circulação na economia foi criado pelos bancos através da concessão de crédito na forma de depósitos electrónicos. A este respeito tive a oportunidade de escrever aqui no blogue: ler A Grande Questão Política do Nosso Tempo.

Importa dizer que a transferência de dívida pública dos estados para o foro de gestão de um "Tesouro" europeu não significaria qualquer despesa adicional para os cidadãos da zona Euro – muito menos dos trabalhadores dos países mais ricos para os mais endividados. Pelo contrário, teria como principal efeito uma redução imediata de cash-flow da banca comercial em resultado da perda dos juros que esta faz incidir sobre a dívida pública, susceptíveis à influência das agências de rating – empresas igualmente ligadas ao sector financeiro.

Neste xadrez político, o Primeiro Ministro afirma-se contrário à hipótese de reestruturação – contrário até a que sobre o tema se venha a realizar qualquer debate. Assim sendo, importa interrogar qual a estratégia, qual o projecto que o actual governo tem a apresentar para Portugal.

A possibilidade de levar a cabo um processo de investimento público ao abrigo do Plano Juncker afigura-se praticamente vedada a Portugal. Tratando-se de um plano que tem subjacente a co-participação maioritária de fundos da banca comercial, tal significa actuar na dependência de mais endividamento público. Estando Portugal em endividamento excessivo e sobre o efeito de apertados limites orçamentais, a acção do Plano Juncker no nosso país só poderá assim ser residual.

Outra possibilidade seria esperar o relançamento do financiamento privado da economia, em resultado do reforço das reservas bancárias por via da acção de quantitative easing pelo BCE. No entanto, mesmo presumindo que tal reforço de reservas se viesse a traduzir na maior disponibilidade da banca para conceder crédito às empresas – o que de resto contraria a experiência já observada nos Estados Unidos e no Reino Unido – sucede que as empresas portuguesas e os particulares também se encontram numa circunstância de excessivo endividamento.
Incapazes de absorver mais crédito, com um mercado em contracção de consumo, tal via parece também não oferecer quaisquer perspectivas de sucesso.

Em que fica, então, o projecto do governo para Portugal? Sem reestruturação da dívida pública (ou uma alteração substancial do modelo de gestão de dívida dos estados da zona Euro), sem acesso significativo ao investimento europeu e sem viabilidade para financiar a economia privada no mesmo modelo de crédito que vigorou até aqui, só nos resta um resultado: definhar, lenta e inexoravelmente.

Torna-se claro que Pedro Passos Coelho, convergindo com a corrente dominante na União Europeia protagonizada por Angela Merkel, Mario Draghi e Jean-Claude Juncker, e avalizada por Christine Lagarde, não actua na defesa dos contribuintes europeus, muito menos dos portugueses. Ao negarem a possibilidade de instituir um sistema de gestão de dívida pública na zona Euro, os líderes da União estão a actuar em defesa da superestrutura financeira que vem controlando a política monetária, abusando do poder que lhe foi colocado à disposição para gerar uma insustentável bolha de crédito de crescimento exponencial nas últimas décadas.

É isto que está em causa. E é também por isso que qualquer debate sobre reestruturação, seja por via das propostas subscritas por Varoufakis, pelo plano de Wyplosz ou por qualquer outro, é abafado liminarmente do espaço público. Para não ver posto em causa o establishment de poder que vem ditando as regras do projecto Europeu.
4.2.15

Terra incognita


Se a Europa – isto é, a Alemanha – forçar o Governo de Tsipras a capitular, muita gente ficará feliz com o desfecho. Mas são inconscientes: estarão apenas a antecipar o fim da Europa. A capitulação e a humilhação da Grécia detonará, entre muitos povos da Europa, uma onda de ódio antialemão e de frustração com Bruxelas que será terra fértil para extremismos bem mais perigosos e incontroláveis. O desespero nunca foi bom conselheiro. A chancelerina Merkel devia meditar na célebre frase de Kennedy: “Os que tornam impossível a revolução pacífica tornam inevitável a revolução violenta”.
– Miguel Sousa Tavares: Se nós não somos a Grécia é porque somos parvos; Expresso

A imagem fica para a crónica destes tempos. A História desenrola-se em frente dos nossos olhos. Não sabemos ainda, em boa verdade, o que estamos a ver; a capitulação de um funcionário de Bruxelas ou o vôo de Ícaro de Varoufakis. O presente é sempre um espesso nevoeiro que tarda em passar. É a maldição de viver tempos interessantes. Ou tempos estranhos, estes, em que a estabilidade é uma certeza de agonia e na incerteza encontramos a única réstia de esperança.

Arquitectura à Moda do Porto


Arquitectura à Moda do Porto é uma série que dá a conhecer um olhar irreverente sobre obras de arquitectura emblemáticas das últimas duas décadas da cidade invicta. São dez episódios para descobrir no sítio web deste projecto criado pelos arquitectos Filipa Figueira e Tiago Vieira, em colaboração com a Building Pictures.

A equipa pretende dar continuidade à iniciativa estando actualmente à procura de parceiros para estender o conceito a outras cidades. Uma forma interessante de estimular o interesse não só de arquitectos mas do público em geral pelo gosto da arquitectura através de pequenas curtas metragens, leves e divertidas, com uma forte relação com a música. Mais informações disponíveis através do Facebook.